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Texto Edu Aiello
“Essa metamorfose ambulante”
Seg, 21 de Dezembro de 2009 11:29 Clube Moto COLUNAS - ARTIGOS - Dentro do Casco - Edu Aiello
Noventa e dois.
Este foi o exato número de dias que fiquei sem andar numa motocicleta com pneus de cravo. Não fosse um ou outro rolê de dual, teria ficado 3 meses sem ver poeira levantar. Mas, quem é do ramo sabe, rolê de dual não vale. É bom, mas, não é igual.
Pra um velho viciado, a droga certa é manipulada a partir de duas partes iguais. Uma parte da endorfina do esporte e, outra, da adrenalina da velocidade. Não basta só uma ou, só outra. Só um composto das duas, surte o efeito desejado.
Alguém pode passar a manhã inteira na academia. Isso irá lhe fazer bem. Alguém pode fazer uma curva, montado numa R1, a 190km/h. Isto também é bom. Mas, o MotoCross, o XC neste caso, é como isso tudo, junto. A união do bem estar proporcionado pelo esporte e da emoção da adrenalina. Nothing like MotoCross.
Durante noventa e dois dias, cumpri um ciclo de atividades e emoções que pareciam estar premeditadas. Sincronizadas para acabar, exatamente, hoje.
Vendi minhas motos, voltei minha atenção para família. Curti as meninas e os velhos durante alguns finais de semana. Como há muito não o fazia. Curti meus amigos, “motoheads”, “beerheads” e “rockers”. Tomei cerca de 37% além do que costumo tomar. Tomei cerveja na sexta feira a noite, e no sábado também. Coisa que não fazia há algum tempo, pra não “estragar” o rolê.
Relaxei.
Na sequencia, assumi que andaria de dual, como opção. Fiz algumas pequenas trips. Tirei o capacete da minha mulher do armário onde estava, desde o nascimento do “nenê”. Fizemos o que fazíamos quando namorados..., rolês de moto nas “hot summer nights”, até enjoar de andar.
Conversei com minha avó nas manhãs de sábado. Fui à piscina do clube aos domingos. Me “desconectei” do mundo off road. Isso tudo aconteceu de forma natural. Curti fazer isso.
Até que um dia, fui à dispensa buscar um martelo pra pregar quadros na parede. Tava “devendo” isso há meses...
Nada descreve melhor o que senti naquele momento, do que as palavras de Pedro Bento e Zé da Estrada:
“E quando olho Minha tralha pendurada De tristeza dou risada Pra não chorar de paixão”
Chorei.
Aquele foi o ponto. Dali, em diante, uma sucessão de eventos me guiou diretamente pra manhã de hoje. Andava as voltas com a idéia de voltar a andar de Harley. Quis comprar uma KTM 690. Namorei um Jeep.
Tudo isso, simplesmente desapareceu da minha cabeça, no momento em que entrei naquela dispensa e vi meus equipamentos pendurados na parede.
Coincidentemente, estes dias foram de grande agitação no mercado. Canhões em oferta, pipocavam na tela a todo momento. Confuso com a velocidade que as coisas estavam acontecendo outra vez, vacilei. Vacilei e perdi um negócio excelente. Não foi falta de aviso. Meu mecânico, meu amigo, um dos caras que conheço que mais gosta e entende de motocicletas de MotoCross, me avisou. Fez mais do que me avisar. Me ligou a caminho da fábrica pra se certificar de que eu, realmente, iria perder a oportunidade.
Perdi.
Quando dei por mim, o estoque já havia se esgotado e eu, fiquei sem.
Ainda “confuso” com a rapidez com que aquilo tudo estava acontecendo, me impus um limite: “Só compro se aparecer outro negócio equivalente.” Os dias então se passaram e,... nada. Difícil raio que cai duas vezes no mesmo lugar.
O final do ano chegou e, com ele, a temporada de confraternização. Eu nem sei se acredito em destino, ou coisa que o valha. Mas, o que vou contar agora, aconteceu de fato.
Marquei uma visita num cliente do interior, cidade pequena. Pra chegar a fabrica, tive que atravessar a cidade. Neste caminho, uma revenda de motocicletas, na avenida principal, me chamou a atenção. Havia um canhão, igualzinho ao que eu havia perdido a oportunidade de comprar, lá dentro. Ignorei. Nem imaginei. Fui à reunião. Conservei, agradeci, revi velhos amigos.
Saí da fabrica e o relógio marcava 11:00. Pensei ..: “Vou esperar aquele restaurante que conheço abrir. Arroz feijão honesto. Melhor que comer trash na estrada” Esperei 15 minutos, comi 700gr de arroz feijão e...., resolvi dar uma volta no quarteirão, pra fazer digestão. Era 12:00, fazia um calor ardido de chuva. Eu tinha ido a uma confraternização na noite anterior, tava meio de rebarba, achei melhor andar um pouco antes de cair no trecho outra vez. Assim o fiz.
No meio desta caminhada, a tal loja de motos. Sombra, água gelada, varias motos..., entrei. A vendedora se aproximou, nos cumprimentamos.
“Só estou olhando, obrigado”. Vejo o canhão encostado na parede. Me aproximo. Cabelinhos no pneu, é zero...! Pergunto: “Esta moto esta à venda?”
Surpresa!
“Está.”
Segue-se uma negociação rápida e, com a interferência do proprietário, chegamos a um numero muito próximo a aquele que havia preterido dias atrás. Negócio fechado. É minha. Vou carregar já.” Parecia um..., sonho. Não pela bike, que é maravilhosa, mas, pela forma absolutamente despretensiosa como as coisas estavam acontecendo. Havia procurado aquele negócio nos quatro cantos do Brasil e, a aquela altura, aquilo já não mais existia. Havia saído pra visitar um cliente. Nunca imaginei que iria encontrar ali, totalmente por acaso, a solução” dos meus problemas”
Comparar bikes é uma tarefa muito pouco provável. Difícil. Horas de uso, modelo, set up, acessórios, tipos de pista, pneus, características de pilotagem..., tudo é relativo, nada é certo ou determinante. O “modelo” de manufatura atual, frequentemente nos leva a pensar que as diferenças “inexistem”. Como nas marcas de cerveja de uma única cervejaria. Vários rótulos diferentes, mesmos processos, mesmos ingredientes. Tava sabendo que iria curtir muito. Voltar a andar, depois de tanto tempo, seria bom demais. Ainda mais num canhão novo. Mas, não imaginava que iria, mais uma vez, me seduzir pelas diferenças entre as iguais.
Pequenas alterações de geometria, motorização, configuração... Muito bom. Pirei na motinho...! Mais uma vez, difícil comparar. Imprudente. Improvável. Mas, uma coisa é certa: moto nova, novas descobertas, outros parâmetros, curtição total!
Gosto de estrear uma bike sozinho, de preferência, num circuito fechado. Moto nova é como começo de namoro. Intimidade, silêncio, isolamento, atenção nos detalhes e reações. Melhor...! Adorei os “novos” recursos de posicionamento de guidão. Me ajudaram a corrigir um (mais um), antigo vicio de postura. No set up original, comparando com minha antiga montaria (já modificada) o conjunto me pareceu mais ... “dócil”. Menos..., “estúpido”. Forte e eficiente, mas, mais....”na mão”.
Dar um tempo, rever conceitos, analisar possibilidades é sempre bom. Melhor do que “ter aquela velha opinião formada sobre tudo” Sabia que iria retornar, só não imaginei que isto fosse acontecer tão “rápido”.
Frequentemente associamos figuras femininas à nossas motos. Uma manifestação de amor, uma correlação de sentimentos. Nossas motos, nossas amigas, nossas mulheres. Nesta mesma linha de raciocínio, parar de andar de moto guarda um momento muito bom: o retorno, a volta, a reconciliação.
Tô nessa..., pirando na “suavidade”, “esperteza” e “leveza”, da japonesinha...!!!!
MOTOHEAD
Enviado por Moa Bergonsi (Erechim - RS)
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